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sábado, 30 de julho de 2011

Técnicas de Administração

Dona Natália só queria pagar seu título. O único erro de Dona Natália foi ter entrado num banco que não era o seu.
Como já foi mencionado anteriormente, banco atualmente só contrata estudantes de nível superior, especialmente do curso de administração. Quando estes começam a trabalhar, logo lhes vem a cabeça à idéia de aplicar as técnicas de administração aprendidas na Universidade.
No entanto, ao se trabalhar em um banco por um certo tempo, chega-se à conclusão que apenas uma técnica administrativa é realmente aplicada na prática. Ela é conhecida como barro na parede.
Isso mesmo, a técnica de administração barro na parede (ou, em linguagem popular “se colar, colou”). Ela funciona da seguinte forma. O banco conhece as leis, sabe os regulamentos e os procedimentos de controle. Mas as pessoas comuns não. Os brasileiros me perdoe o leitor desavisado, não conhecem os seus direitos e deveres. E aí é que entra a técnica. Quando se trata de leis que interessam ao banco, ele é o primeiro a recorrer a elas para se defender. Mas quando é o contrário, ele finge que as leis não existem “só pra ver se cola”.
Vou citar exemplos, sendo que o primeiro trata diretamente do caso de Dona Natália:

1. Há bastante tempo, o Banco Central baixou uma portaria que obriga todos os bancos a aceitarem títulos de outros bancos sem cobrança de qualquer tarifa, pois não pode haver discriminação entre clientes e não-clientes, e, sendo que os bancos têm que aceitar esses títulos de seus clientes, não podem recusar de não-clientes. A pena para infração dessa norma é de 100.000 reais ao dia, sendo que a instituição infratora pode até ter suas portas fechadas. Ao sermos informados disto, recebemos também instruções de como proceder a caso algum não-cliente quisesse pagar suas contas em nosso banco.
Eis o problema. As instruções eram bem claras. Devíamos fingir desconhecer a lei e não informar ao não-cliente, sob nenhuma hipótese, que ele poderia pagar seus títulos ali sem ônus algum. Caso alguém descobrisse que poderia pagar as contas em qualquer banco, deveríamos informar a essa pessoa que ela somente poderia faze-lo através do auto-atendimento (o que normalmente a desencorajaria, pois ela iria querer levar o recibo autenticado na mesma hora). Se, ainda assim, a pessoa fosse teimosa, teria que pegar a fila do usuário (que é sempre mantida artificialmente enorme, por motivos que serão discutidos em um capítulo mais adiante) e somente após muita insistência conseguiria pagar seu título. Ufa! Pobre Dona Natália.
O pior é que isso funciona.  Além disso, é fato que fiscalização do Banco Central é como fantasma. Quase todo mundo acredite existe, mais poucos já viram. Creio que ver um fiscal do Banco Central é mais raro que ver uma nota de cem (o que já é raríssimo). Sabendo disso, os bancos não fazem grandes esforços para cumprir as leis. Eles se preocupam somente com a aparência.

2. O Banco central, através de sua Resolução 2025, determinou que todas as contas correntes devem possuir a documentação mínima, sendo esta a Identidade, CPF e comprovante de residência. Os bancos estão obrigados a exigir a documentação original no ato de abertura da conta, confirmando a autenticidade da mesma e carimbando as copias com a expressão “Confere com original” (A abertura de conta cabe aos gerentes de negócios, que reportam somente ao gerente titular).No entanto, na prática, o que ocorre é que cópias sem original são utilizadas na abertura das contas, gerentes recebem documentos via fax (Isso mesmo, via fax), carimbam os mesmos como se tivessem visto o original e fica tudo assim mesmo. Já vi até mesmo cópias de documentos ainda com o sinal de fax, carimbadas como conferidas com original (que provavelmente também deve ter vindo por fax, só não sei como!).
É claro, existem casos e casos. Uma exceção até poderia ser aberta em casos de pessoas de reconhecida idoneidade. O problema é que esses casos são a regra, não a exceção. 80% das contas são abertas dessa forma. Há casos que sejam a ser patéticos. Documentos ilegíveis são corrigidos de caneta (sério), comprovantes de residência em nome de Terceiros ou com endereço divergente do especificado pelo próprio cliente e até mesmos Cpfs vencidos são normalmente aceitos sem mais delongas.  Já houve até mesmo uma oportunidade na qual a pessoa abriu uma conta com todos os documentos falsos e apresentou como referência a si próprio (seu nome verdadeiro). Citar o pai ou a mãe como referência também é algo bastante comum, apesar de soar ridículo (se seus pais não capazes de dizer boas coisas a seu respeito, você realmente está encrencado).
O interessante disso tudo é que se eventualmente em uma auditoria ficar constatada qualquer irregularidade nessas aberturas de conta, o gerente administrativo (que não tem nenhuma autoridade sobre os gerentes de negócios) é punido, e nada acontece com quem abriu as contas. Faz bastante sentido, não acham?
            A dona Natália, muito mais sensata, procurou seu próprio banco para pagar seu título. Não a culpo por não brigar por seus direitos. Em alguns casos, é pura perda de tempo.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Vá Poupar em outro lugar

José só queria abrir uma poupança para guardar as sobras de seu salário e, quem sabe, comprar uma moto daqui alguns meses.Uma pena que para o banco X, o dinheiro de seu José não interessava. E não se tratava do fato da quantia ser pequena. Era algo muito mais mesquinho.


Quando se lê revistas especializadas em economia, uma das coisas que invariavelmente se repete é a velha máxima que “brasileiro não poupa” e que um dos motivos para a crise é o baixo volume de poupança nacional. Apesar disso, nunca vi o governo fazendo nada para tentar mudar essa visão. Realmente, somos um povo que não liga para poupar dinheiro, o que nos faz perder uma quantia expressiva de nossos rendimentos no pagamento de juros exorbitantes. Se pudéssemos controlar a tentação de comprar a prazo e juntássemos o dinheiro, não só evitaríamos futuras dores de cabeça como também economizaríamos bastante.

No entanto, o que se vê é que o governo sempre trabalhou de forma atabalhoada a respeito. Vive mudando as regras do jogo, o que obriga aos bancos ficarem se adaptando as mudanças o tempo todo. Como todo mundo sabe, o custo de captação de dinheiro (o chamado custo Brasil) é bastante alto; a poupança, por outro lado, é um dinheiro que sai quase de graça para os banqueiros. Para evitar que os bancos especulassem com o dinheiro da poupança, o governo os obriga a aplicar todo o volume em crédito imobiliário. Para piorar ainda mais as coisas, se o banco não for capaz de emprestar todo o dinheiro, deve entrega-lo ao Banco Central compulsoriamente sem receber nada em troca. Emprestar dinheiro no Brasil já é difícil, mas investir em casas próprias e similares é pior ainda. Mas isso já é com o governo. Se fosse ficar discutindo o que o governo faz de errado, teria que escrever outro livro.

O ponto ao qual quero chegar é o seguinte: Devido a essas regras, o banco para o qual trabalho simplesmente desinteressou-se pela poupança. Creio que, se os Diretores do banco pudessem, proibiriam a abertura de novas contas e encerrariam as demais. De uma certa forma, isso já esta acontecendo. Como, é claro, não poderia puramente se livrar dos poupadores, começou a inventar meios para se livrar do problema. Abaixo segue uma lista das atitudes tomadas pelo banco para minimizar (e se possível eliminar por completo) sua carteira de poupadores:

1. O banco criou um fundo de investimento, com características bastante parecidas as da poupança, como a isenção da CPMF após 90 dias de aplicação, interessante para a época, rendimentos com 30 dias e documentação exigida mesma da poupança. A taxa de juros inicialmente era o dobro da taxa de poupança, o que se revelou um atrativo. No entanto, o cliente tem que abrir uma conta corrente para efetuar a aplicação, o que é facilmente providenciado. O valor mínimo para aplicação é de 100,00 reais. A grande sacada nesse caso é que o cliente é convencido a retirar seu dinheiro da poupança (Na qual ele tem garantias por lei) e aplicar num fundo de renda variável que é garantido pela instituição, ou seja, caso ela vá a falência, ele não recebe nada. Só que esse “detalhe” não é citado na apresentação do produto. Nem é citado o fato que, como se trata de um fundo, o banco pode fazer o que quiser com o dinheiro, pois apesar de pagar mais juros que a poupança ainda paga uma miséria se comparado com a taxa de juros praticada no cheque especial (em torno de 8%!);

2. O banco fixou o valor mínimo para abertura e manutenção de poupança em 1.000,00 reais! Sim, o poupador que não possui essa quantia depositada é gentilmente proibido de efetuar depósitos e só pode efetuar saques para encerrar sua conta. Ë claro, Na mesma oportunidade ele é avisado que o valor mínimo para aplicação em fundo de renda é 100,00 reais;

3. Caso o poupador insista em manter sua conta, recusando-se a sacar seu dinheiro, o banco bloqueará sua conta após 180 dias sem movimentar, ele não terá direito a solicitar cartão magnético nem receberá extratos pelo correio. Para sacar qualquer quantia, será obrigado a enfrentar um fila monstruosa atendida por apenas um caixa, em meio a usuários, clientes pessoa jurídica e clientes conta-salário;

4. O banco aumentou o prazo de bloqueio para cheques depositados em poupança (mínimo de cinco dias úteis não importando o valor ou a praça dos cheques);

5. Cliente de poupança não pode efetuar depósito em caixas automáticos;

6. Cliente de poupança que não possuir conta corrente deve pagar uma taxa mensal de 3,50 se quiser manter o cartão magnético.

7. Para completar, qualquer depósito efetuado entre agências fica bloqueado por 48 horas, não importando se foi feito em dinheiro ou não. O banco alega que poupança não pode ter movimentação de conta corrente, e não deve ser utilizada para transferências. Ah, bom.

E não fica só nisso não. A taxa de juros do fundo criado para receber o dinheiro dos poupadores cai com o tempo e fica bastante parecida com a taxa da poupança. A baixa da aplicação é mais difícil, pois o cliente tem que solicitar um dia antes de sacar. Após os primeiros 90 dias, o rendimento passa a ser diário, o que confunde os clientes. E muitos transferem seu dinheiro de boa fé, sem ao menos entender o que está acontecendo.

Seu José teve que abrir sua poupança em outro lugar, depois de quase ser expulso do banco. Depois de tudo isso, fica fácil saber por quê o Brasil é um país com pouca poupança.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Aprendiz de feiticeiro


Dona Marisa, cliente do banco há vários anos, achava que seu relacionamento com a gerência a ajudaria conseguir uma vaga de estagiário para seu filho Fernando. Nesses tempos bicudos que estamos vivendo, conseguir um emprego formal está se tornando missão impossível. Uma pena que Dona Marisa não pode voltar no tempo.
Antigamente para se trabalhar em um banco, só era necessário ter o segundo grau completo, prestar um concurso básico (português, matemática e técnicas bancárias) ou, é claro, ter um padrinho, o que confirmava ser o teste escrito nada mais que uma mera formalidade.
Infelizmente (ou felizmente, dependendo do ponto de vista), com o advento da globalização e a valorização súbita da educação neste país, os bancos em geral, além de demitirem a rodo, só contratam universitários dos ramos de administração, ciências contábeis e economia. Nada contra isso, pois se tratam na sua maioria de pessoas preparadas, com a mente aberta e dispostas a realmente fazer alguma diferença. O filho da Dona Marisa tendo apenas o segundo grau estava definitivamente fora do páreo. O problema é que o serviço bancário, em geral, não exige preparação nenhuma. É um serviço automático, repetitivo, emburrecedor; pode ser realizado por qualquer pessoa com o mínimo de alfabetização (basta saber ler e escrever com dificuldade, pois quase todo bancário desaprende a escrever com o tempo).
No entanto, todo universitário ao ser contratado pensa da mesma forma. “Vou revolucionar isto aqui”. Mal sabe ele o que o espera.
Um estudante de Administração de nome Alexandre, contratado como funcionário, me descreveu sua experiência no seu primeiro dia de banco. Chegou todo cheio de energia, e observou aqueles funcionários que corriam freneticamente de um lado para o outro, relatórios em todas as mesas, a aparente complexidade daquele lugar mexeu com seu imaginário.”Como deve ser difícil trabalhar aqui!” Pensou ele. “Terei eu capacidade suficiente para desenvolver um bom trabalho?”.
Dúvida cruel. Que foi dissipada rapidamente ao ser apresentado ao seu primeiro “desafio”.
Contar moedas.
Isso mesmo! Contar sacos e mais sacos plásticos de moedas, utilizando uma máquina que mais parecia sobra da primeira guerra mundial ou um refugo da Revolução Industrial.
E lá estava ele, desenvolvendo seu trabalho e matutando silenciosamente “o que poderia ser pior que isto no meu primeiro dia de trabalho?” A resposta não tardaria a chegar.
Até hoje ainda me impressiona que funcionários e estagiários sejam contratados e postos ao trabalho sem o conhecimento de seus colegas. Você simplesmente chega para trabalhar e lá está um completo estranho mexendo em pacotes de moedas. Se um dia um ladrão entrar na agência e se dirigir ao arquivo de talões de cheques, há uma grande possibilidade dele pegar quantos quiser sem ser molestado, pois todos provavelmente pensarão tratar-se de um novo funcionário. Nesse dia não foi diferente. Lá estava ele concentrado em sua difícil tarefa quando foi subitamente indagado: “Quem é você? O que está fazendo ai? Está perdido, menino?” Gritou-lhe o Sr. Arnaldo, um dos gerentes.
Ao que ele lhe respondeu: “estou contando moedas, sou um novo funcionário”.Então, Arnaldo disse um “tudo bem, não tinha sido informado de que havia um novo funcionário”. e caiu fora. É mole? E isso ainda não era tudo!
O chefe de caixa na época e atual gerente de contas jurídicas, Sr. Jetson estava preocupado com seus subordinados, pois o movimento era muito grande e ele tinham que ficar até tarde. “Eles precisam de um lanche” pensou. Mas quem pagaria? Ele mesmo? Sem chance. O banco? Nem pensar. Ainda estava nítida em sua memória a última vez que a situação dos caixas trabalhando sem receber horas extras havia sido discutida. Foi aí que ele teve a grande idéia.
Nesse meio tempo, Alexandre se encontrava perdido as sacolas de moedas que giravam a sua volta quando se deparou com a voz de Jetson, que lhe disse: “Você está contando essas moedas?” “Não, estou jogando boliche”, deve Ter passado pela cabeça do rapaz, mas ele simplesmente respondeu “Sim”.
“Você vai fazer o seguinte” Continuou o chefe, sem titubear; “De cada pacote de 100, 00, você vai tirar 5,00. Dos pacotes de 50,00 você tira 1,00. Não se preocupe, pois essas moedas sempre vêm com diferença mesmo, ninguém irá desconfiar”.
“E o que eu faço com este dinheiro?” Indagou o rapaz, ao que o chefe lhe respondeu: “Você passe para a tesouraria, que ele será utilizado para pagar o lanche dos caixas”.
Isso é que é primeiro dia. Aprender a roubar deve ser o sonho de todo pretendente a administrador. Sem contar o fato que contar moedas é algo bastante emocionante.O pior é que parte desse dinheiro foi utilizada posteriormente para pagar um churrasco de despedida de um dos gerentes!


Escuta Telefonica


Quando o Sr. Jorge ligava para seu gerente no banco X ele dificilmente consegui falar com o mesmo. Os gerentes sempre estavam em uma ligação que parecia durar para sempre e a telefonista, quando atendia ao telefone prontamente (o que às vezes acontecia) o colocava em espera ouvindo aquela musiqueta infernal onde ele era geralmente esquecido!
O que o Sr. Jorge nem desconfiava era que uma das razões pela qual a telefonista demorava tanto a atender ao telefone ou o esquecia freqüentemente na espera era que ela tinha que desempenhar varias “funções” ao mesmo tempo, nem todas dentro da legalidade.
Desde que a palavra “espião” (originada no francês antigo “espie” que quer dizer observar) virou moda com a descoberta de diversos grampos telefônicos em autoridades pelo país afora, muito se falou sobre a invasão de privacidade causada por eles. Entretanto, isso sempre me pareceu uma discussão distante haja vista que não envolvia diretamente o nosso dia a dia. Que eu saiba, grampos telefônicos, ao menos em teoria, só podem ser feitos por autorização judicial. No entanto, não é o que se vê na prática.
Devido a vários acontecimentos, suspeitava-se que a ligações telefônicas estavam sendo monitoradas. Era uma hipótese tão absurda quanto verdadeira, imaginar que pessoas que deveriam ter mais o que fazer gastassem seu precioso tempo com algo tão baixo. No entanto, um gerente de negócios, Sr. Carlos, costumava receber ligações telefônicas ao fim do expediente. Esse gerente sempre tinha atritos com o Sr. Nero, por razões que serão citadas mais adiante. Um dia, Carlos foi demitido. Como é de praxe em casos de demissão, há sempre uma pequena reunião entres os funcionários do sindicato e o gerente titular, para se descobrir os motivos da rescisão. Até ai tudo bem. Só que Nero não conseguia demonstrar motivos plausíveis que justificassem a dispensa do funcionário. Cada motivo apresentado era rechaçado sem dó e piedade. Por exemplo, ele alegou que o demitido não havia cumprido suas metas de abertura de conta, o que não era verdade. Não convenceu ninguém. Tentou demonstrar que o ex-funcionário estava acomodado, não procurava mais novos clientes. O problema é que ninguém naquela agência fazia isso. Se isso fosse um pecado, todos os membros da gerência teriam que ser crucificados.
Finalmente, Nero virou-se para os funcionários do sindicato e disse: “Ele foi demitido por gastar seu tempo recebendo ligações particulares durante o expediente”. (Isso por si só já seria um absurdo, pois é público e notório que o Sr. Paulo, promotor de vendas de seguro que lá permanece até hoje, conversa com prostitutas ao telefone durante o expediente apesar de ser casado. Aliás, Paulo é um notório funcionário fantasma, que apesar de quase não aparecer para o trabalho recebe o segundo melhor salário da agência) Mas o pior não era isso. Como ele sabia disso? Como ele podia afirmar que as ligações eram particulares?Ao ser indagado sobre isso, ele simplesmente alegou que o próprio Carlos lhe havia confessado que as ligações eram particulares.
Em uma conversa reservada com o demitido, ficamos sabendo que ele nunca disse nada a Nero sobre essas ligações, mas que as mesmas realmente eram particulares e que por uma incrível “coincidência”, ele estava falando com o ex-gerente titular que havia sido transferido para outra cidade, o sr. Dalmo. Outra “coincidência” espantosa era o fato que os dois, Nero e Dalmo, eram desafetos declarados, para não dizer que se odiavam.
Até ai já havia indícios suficientes para se desconfiar que algo de errado estava acontecendo com os telefones. No entanto, outro fato teria de ocorrer para que não houvesse dúvidas.
Um diretor do banco chamado Vladimir costumava ligar para Anacleto (sempre ele). Nesse dia, a telefonista de nome Sandra recebeu a ligação e transferiu-a normalmente ao mesmo. Ele estava conversando com o diretor e num determinado momento este pediu para falar com Ágata, uma gerente de negócios que havia começado a trabalhar ali há pouco tempo. Essa gerente, por sinal, viria a se tornar famosa dentro do banco pelas peripécias em que se envolveria, mais isso veremos mais adiante. O funcionário informou que ela não estava na mesa dela e que ele deveria ligar mais tarde. Ao dizer isso, desligou o telefone. Nesse exato momento, a gerente (que se encontrava na sala de reunião, que fica localizada atrás e a direita da sala da telefonista) passou em frente à sala da telefonista. A telefonista então gritou para o funcionário: “Olha a gerente aí, o diretor não queria falar com ela?”.
Anacleto, obviamente confuso com a capacidade telepática da moça, foi até a sala dela e lhe perguntou: “Como você sabia que o diretor queria falar com ela?”. Sandra, visivelmente assustada e percebendo a besteira que tinha feito tentou consertar, dizendo: “Ah, Eu ouvi você dizer que não sabia onde Ágata estava”. Agora é que ficou tudo complicado. A telefonista fica em uma sala de vidro, à aproximadamente 10 metros de distância do local no qual Anacleto estava atendendo ao telefone. Pode se deduzir que seria impossível para ela ouvir o que eles conversavam mesmo que ela quisesse. A não ser que ela estivesse utilizando uma função do aparelho telefônico, que a permitiria entrar em qualquer ligação sem ser percebida, bloqueando o microfone e somente ouvindo.
De posse dos fatos, Anacleto e Cláudio se reuniram com o Gerente Administrativo, Sr. Adroaldo, e lhe informaram de sua desconfiança. Ele se dirigiu a telefonista e de forma reservada, exigiu a verdade, no que ela confessou que monitorava sim as conversas telefônicas do pessoal do sindicato, mas o fazia por ordem expressa de Nero. Também deveria preparar relatórios sobre o que era conversado e semanalmente, ele e ela reuniam-se para que ela o informasse de tudo. Ela jurava que somente fazia isso com os funcionários do sindicato, mas como acreditar nela? Também não havia meios de se provar que ela o fazia sob ordens. A única saída foi lhe dizer que não fizesse mais.
Você provavelmente nunca passou por algo parecido, então não tem idéia do que é trabalhar em um local assim. Não poder conversar com a própria esposa no telefone, por receio de estar sendo vigiado é horrível. Uma colocação mal feita, uma frase errada pode significar o desemprego. O pior é saber que, em caso de abrir um processo contra ela, Nero simplesmente diria que nunca a mandou fazer coisa alguma e se safaria ileso.No final das coisas, a solução veio de forma prosaica. O banco simplesmente decidiu que os próprios funcionários deveriam se encarregar do atendimento telefônico, já que, utilizando palavras do próprio banco, a maioria das ligações recebida é particular. Difícil saber como eles conseguem informações desse tipo. Mas difícil ainda é conseguir falar com alguém nesse banco hoje em dia. Quase todas as telefonistas foram demitidas. Coitado do seu Jorge. Agora é que ele não consegue mesmo falar com seu gerente

Introdução


Uma fila de banco. Que arremesse a primeira pedra àquele que nunca enfrentou uma. Ao ficar numa dessas, por uma dessas vicissitudes da vida, temos a oportunidade única de observar uma agência bancária por um certo período de tempo e, vendo aqueles funcionários apressados, desenvolvendo suas tarefas em ritmo alucinante de forma automatizada, imaginamos a instituição como sendo organizada, responsável, até mesma preocupada com seus funcionários e seus clientes. Nada mais distante da realidade.
Imagine um banco. Qualquer banco. Em um aspecto todos são iguais, não importa se são federais, estaduais, privados ou públicos. Hoje em dia, o que conta é ter lucro. Quando se diz lucro em terminologia bancária não nos referimos simplesmente a produzir um resultado positivo. O que se quer é lucro mesmo, o maior possível, sem se ligar para os meios, formulas, planos ou estratagemas. Tudo é possível e legal, desde que ninguém esteja olhando.
Nessa corrida desembestada por dinheiro, leis são desrespeitadas, direitos humanos são massacrados, até mesmo a lógica deve ser esquecida, já que não agimos, somente reagimos. Só se leva em consideração o presente, não o futuro. Como vocês verão nos capítulos a seguir, não é feito nenhum planejamento em longo prazo. Para a instituição financeira, qualquer projeção para mais de seis meses é inútil. Vivemos em semestres, isso é tudo o que importa.
No entanto, se uma instituição pretende ter um crescimento sustentado e não somente uma bolha de crescimento, ela precisa valorizar seus ativos. E qual o ativo mais importante de uma empresa que seus funcionários? São eles que a gerenciam, tomam as decisões e são, em última instância, os únicos responsáveis pelo sucesso ou fracasso da mesma. Por funcionários, se refere aqui a todos, desde o faxineiro ao Diretor-Presidente. Como valoriza-los? Obviedade das obviedades: Com treinamento, é claro. Mas o treinamento tem que ser para todo mundo, não somente para os executivos. Desde o momento em que o cliente entra em uma agência ele precisa ser abordado da maneira correta, informado precisamente do que precisa fazer e deve ser lhe dada à opção de decidir. Parecem coisas obvias, e até seriam, se fossem respeitadas. Mas não são. Tudo isso ficará claro nas estórias a seguir relatadas.
A estórias aqui contadas demonstrarão como o cliente na maior parte dos casos não tem uma noção clara do que acontece nos bastidores. As informações aqui relatadas tornarão as estórias muito mais fáceis de serem digeridas, mesmo que você não seja ou não tenha sido um bancário.
Todos os nomes constantes neste livro são fictícios. As estórias, no entanto, são bem reais e acredito que aconteçam todos os dias em diversos pontos do país, em menor ou maior escala.
É claro, aqui não se pretende colocar todos os bancos do país no mesmo saco. O que se pretende é que algumas coisas fiquem claras para o observador externo, ou seja, o cliente. Ele precisa saber em que terreno está pisando. Mais se você, leitor, for um bancário e se reconhecer ou reconhecer o seu banco nestas páginas, acredite: Você não está sozinho.