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segunda-feira, 22 de março de 2010

Vá Poupar em outro lugar

José só queria abrir uma poupança para guardar as sobras de seu salário e, quem sabe, comprar uma moto daqui alguns meses.Uma pena que para o banco X, o dinheiro de seu José não interessava. E não se tratava do fato da quantia ser pequena. Era algo muito mais mesquinho.


Quando se lê revistas especializadas em economia, uma das coisas que invariavelmente se repete é a velha máxima que “brasileiro não poupa” e que um dos motivos para a crise é o baixo volume de poupança nacional. Apesar disso, nunca vi o governo fazendo nada para tentar mudar essa visão. Realmente, somos um povo que não liga para poupar dinheiro, o que nos faz perder uma quantia expressiva de nossos rendimentos no pagamento de juros exorbitantes. Se pudéssemos controlar a tentação de comprar a prazo e juntássemos o dinheiro, não só evitaríamos futuras dores de cabeça como também economizaríamos bastante.

No entanto, o que se vê é que o governo sempre trabalhou de forma atabalhoada a respeito. Vive mudando as regras do jogo, o que obriga aos bancos ficarem se adaptando as mudanças o tempo todo. Como todo mundo sabe, o custo de captação de dinheiro (o chamado custo Brasil) é bastante alto; a poupança, por outro lado, é um dinheiro que sai quase de graça para os banqueiros. Para evitar que os bancos especulassem com o dinheiro da poupança, o governo os obriga a aplicar todo o volume em crédito imobiliário. Para piorar ainda mais as coisas, se o banco não for capaz de emprestar todo o dinheiro, deve entrega-lo ao Banco Central compulsoriamente sem receber nada em troca. Emprestar dinheiro no Brasil já é difícil, mas investir em casas próprias e similares é pior ainda. Mas isso já é com o governo. Se fosse ficar discutindo o que o governo faz de errado, teria que escrever outro livro.

O ponto ao qual quero chegar é o seguinte: Devido a essas regras, o banco para o qual trabalho simplesmente desinteressou-se pela poupança. Creio que, se os Diretores do banco pudessem, proibiriam a abertura de novas contas e encerrariam as demais. De uma certa forma, isso já esta acontecendo. Como, é claro, não poderia puramente se livrar dos poupadores, começou a inventar meios para se livrar do problema. Abaixo segue uma lista das atitudes tomadas pelo banco para minimizar (e se possível eliminar por completo) sua carteira de poupadores:

1. O banco criou um fundo de investimento, com características bastante parecidas as da poupança, como a isenção da CPMF após 90 dias de aplicação, interessante para a época, rendimentos com 30 dias e documentação exigida mesma da poupança. A taxa de juros inicialmente era o dobro da taxa de poupança, o que se revelou um atrativo. No entanto, o cliente tem que abrir uma conta corrente para efetuar a aplicação, o que é facilmente providenciado. O valor mínimo para aplicação é de 100,00 reais. A grande sacada nesse caso é que o cliente é convencido a retirar seu dinheiro da poupança (Na qual ele tem garantias por lei) e aplicar num fundo de renda variável que é garantido pela instituição, ou seja, caso ela vá a falência, ele não recebe nada. Só que esse “detalhe” não é citado na apresentação do produto. Nem é citado o fato que, como se trata de um fundo, o banco pode fazer o que quiser com o dinheiro, pois apesar de pagar mais juros que a poupança ainda paga uma miséria se comparado com a taxa de juros praticada no cheque especial (em torno de 8%!);

2. O banco fixou o valor mínimo para abertura e manutenção de poupança em 1.000,00 reais! Sim, o poupador que não possui essa quantia depositada é gentilmente proibido de efetuar depósitos e só pode efetuar saques para encerrar sua conta. Ë claro, Na mesma oportunidade ele é avisado que o valor mínimo para aplicação em fundo de renda é 100,00 reais;

3. Caso o poupador insista em manter sua conta, recusando-se a sacar seu dinheiro, o banco bloqueará sua conta após 180 dias sem movimentar, ele não terá direito a solicitar cartão magnético nem receberá extratos pelo correio. Para sacar qualquer quantia, será obrigado a enfrentar um fila monstruosa atendida por apenas um caixa, em meio a usuários, clientes pessoa jurídica e clientes conta-salário;

4. O banco aumentou o prazo de bloqueio para cheques depositados em poupança (mínimo de cinco dias úteis não importando o valor ou a praça dos cheques);

5. Cliente de poupança não pode efetuar depósito em caixas automáticos;

6. Cliente de poupança que não possuir conta corrente deve pagar uma taxa mensal de 3,50 se quiser manter o cartão magnético.

7. Para completar, qualquer depósito efetuado entre agências fica bloqueado por 48 horas, não importando se foi feito em dinheiro ou não. O banco alega que poupança não pode ter movimentação de conta corrente, e não deve ser utilizada para transferências. Ah, bom.

E não fica só nisso não. A taxa de juros do fundo criado para receber o dinheiro dos poupadores cai com o tempo e fica bastante parecida com a taxa da poupança. A baixa da aplicação é mais difícil, pois o cliente tem que solicitar um dia antes de sacar. Após os primeiros 90 dias, o rendimento passa a ser diário, o que confunde os clientes. E muitos transferem seu dinheiro de boa fé, sem ao menos entender o que está acontecendo.

Seu José teve que abrir sua poupança em outro lugar, depois de quase ser expulso do banco. Depois de tudo isso, fica fácil saber por quê o Brasil é um país com pouca poupança.

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