José só queria abrir uma poupança para guardar as sobras de seu salário e, quem sabe, comprar uma moto daqui alguns meses.Uma pena que para o banco X, o dinheiro de seu José não interessava. E não se tratava do fato da quantia ser pequena. Era algo muito mais mesquinho.
Quando se lê revistas especializadas em economia, uma das coisas que invariavelmente se repete é a velha máxima que “brasileiro não poupa” e que um dos motivos para a crise é o baixo volume de poupança nacional. Apesar disso, nunca vi o governo fazendo nada para tentar mudar essa visão. Realmente, somos um povo que não liga para poupar dinheiro, o que nos faz perder uma quantia expressiva de nossos rendimentos no pagamento de juros exorbitantes. Se pudéssemos controlar a tentação de comprar a prazo e juntássemos o dinheiro, não só evitaríamos futuras dores de cabeça como também economizaríamos bastante.
No entanto, o que se vê é que o governo sempre trabalhou de forma atabalhoada a respeito. Vive mudando as regras do jogo, o que obriga aos bancos ficarem se adaptando as mudanças o tempo todo. Como todo mundo sabe, o custo de captação de dinheiro (o chamado custo Brasil) é bastante alto; a poupança, por outro lado, é um dinheiro que sai quase de graça para os banqueiros. Para evitar que os bancos especulassem com o dinheiro da poupança, o governo os obriga a aplicar todo o volume em crédito imobiliário. Para piorar ainda mais as coisas, se o banco não for capaz de emprestar todo o dinheiro, deve entrega-lo ao Banco Central compulsoriamente sem receber nada em troca. Emprestar dinheiro no Brasil já é difícil, mas investir em casas próprias e similares é pior ainda. Mas isso já é com o governo. Se fosse ficar discutindo o que o governo faz de errado, teria que escrever outro livro.
O ponto ao qual quero chegar é o seguinte: Devido a essas regras, o banco para o qual trabalho simplesmente desinteressou-se pela poupança. Creio que, se os Diretores do banco pudessem, proibiriam a abertura de novas contas e encerrariam as demais. De uma certa forma, isso já esta acontecendo. Como, é claro, não poderia puramente se livrar dos poupadores, começou a inventar meios para se livrar do problema. Abaixo segue uma lista das atitudes tomadas pelo banco para minimizar (e se possível eliminar por completo) sua carteira de poupadores:
1. O banco criou um fundo de investimento, com características bastante parecidas as da poupança, como a isenção da CPMF após 90 dias de aplicação, interessante para a época, rendimentos com 30 dias e documentação exigida mesma da poupança. A taxa de juros inicialmente era o dobro da taxa de poupança, o que se revelou um atrativo. No entanto, o cliente tem que abrir uma conta corrente para efetuar a aplicação, o que é facilmente providenciado. O valor mínimo para aplicação é de 100,00 reais. A grande sacada nesse caso é que o cliente é convencido a retirar seu dinheiro da poupança (Na qual ele tem garantias por lei) e aplicar num fundo de renda variável que é garantido pela instituição, ou seja, caso ela vá a falência, ele não recebe nada. Só que esse “detalhe” não é citado na apresentação do produto. Nem é citado o fato que, como se trata de um fundo, o banco pode fazer o que quiser com o dinheiro, pois apesar de pagar mais juros que a poupança ainda paga uma miséria se comparado com a taxa de juros praticada no cheque especial (em torno de 8%!);
2. O banco fixou o valor mínimo para abertura e manutenção de poupança em 1.000,00 reais! Sim, o poupador que não possui essa quantia depositada é gentilmente proibido de efetuar depósitos e só pode efetuar saques para encerrar sua conta. Ë claro, Na mesma oportunidade ele é avisado que o valor mínimo para aplicação em fundo de renda é 100,00 reais;
3. Caso o poupador insista em manter sua conta, recusando-se a sacar seu dinheiro, o banco bloqueará sua conta após 180 dias sem movimentar, ele não terá direito a solicitar cartão magnético nem receberá extratos pelo correio. Para sacar qualquer quantia, será obrigado a enfrentar um fila monstruosa atendida por apenas um caixa, em meio a usuários, clientes pessoa jurídica e clientes conta-salário;
4. O banco aumentou o prazo de bloqueio para cheques depositados em poupança (mínimo de cinco dias úteis não importando o valor ou a praça dos cheques);
5. Cliente de poupança não pode efetuar depósito em caixas automáticos;
6. Cliente de poupança que não possuir conta corrente deve pagar uma taxa mensal de 3,50 se quiser manter o cartão magnético.
7. Para completar, qualquer depósito efetuado entre agências fica bloqueado por 48 horas, não importando se foi feito em dinheiro ou não. O banco alega que poupança não pode ter movimentação de conta corrente, e não deve ser utilizada para transferências. Ah, bom.
E não fica só nisso não. A taxa de juros do fundo criado para receber o dinheiro dos poupadores cai com o tempo e fica bastante parecida com a taxa da poupança. A baixa da aplicação é mais difícil, pois o cliente tem que solicitar um dia antes de sacar. Após os primeiros 90 dias, o rendimento passa a ser diário, o que confunde os clientes. E muitos transferem seu dinheiro de boa fé, sem ao menos entender o que está acontecendo.
Seu José teve que abrir sua poupança em outro lugar, depois de quase ser expulso do banco. Depois de tudo isso, fica fácil saber por quê o Brasil é um país com pouca poupança.
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