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terça-feira, 21 de abril de 2009

Aprendiz de feiticeiro


Dona Marisa, cliente do banco há vários anos, achava que seu relacionamento com a gerência a ajudaria conseguir uma vaga de estagiário para seu filho Fernando. Nesses tempos bicudos que estamos vivendo, conseguir um emprego formal está se tornando missão impossível. Uma pena que Dona Marisa não pode voltar no tempo.
Antigamente para se trabalhar em um banco, só era necessário ter o segundo grau completo, prestar um concurso básico (português, matemática e técnicas bancárias) ou, é claro, ter um padrinho, o que confirmava ser o teste escrito nada mais que uma mera formalidade.
Infelizmente (ou felizmente, dependendo do ponto de vista), com o advento da globalização e a valorização súbita da educação neste país, os bancos em geral, além de demitirem a rodo, só contratam universitários dos ramos de administração, ciências contábeis e economia. Nada contra isso, pois se tratam na sua maioria de pessoas preparadas, com a mente aberta e dispostas a realmente fazer alguma diferença. O filho da Dona Marisa tendo apenas o segundo grau estava definitivamente fora do páreo. O problema é que o serviço bancário, em geral, não exige preparação nenhuma. É um serviço automático, repetitivo, emburrecedor; pode ser realizado por qualquer pessoa com o mínimo de alfabetização (basta saber ler e escrever com dificuldade, pois quase todo bancário desaprende a escrever com o tempo).
No entanto, todo universitário ao ser contratado pensa da mesma forma. “Vou revolucionar isto aqui”. Mal sabe ele o que o espera.
Um estudante de Administração de nome Alexandre, contratado como funcionário, me descreveu sua experiência no seu primeiro dia de banco. Chegou todo cheio de energia, e observou aqueles funcionários que corriam freneticamente de um lado para o outro, relatórios em todas as mesas, a aparente complexidade daquele lugar mexeu com seu imaginário.”Como deve ser difícil trabalhar aqui!” Pensou ele. “Terei eu capacidade suficiente para desenvolver um bom trabalho?”.
Dúvida cruel. Que foi dissipada rapidamente ao ser apresentado ao seu primeiro “desafio”.
Contar moedas.
Isso mesmo! Contar sacos e mais sacos plásticos de moedas, utilizando uma máquina que mais parecia sobra da primeira guerra mundial ou um refugo da Revolução Industrial.
E lá estava ele, desenvolvendo seu trabalho e matutando silenciosamente “o que poderia ser pior que isto no meu primeiro dia de trabalho?” A resposta não tardaria a chegar.
Até hoje ainda me impressiona que funcionários e estagiários sejam contratados e postos ao trabalho sem o conhecimento de seus colegas. Você simplesmente chega para trabalhar e lá está um completo estranho mexendo em pacotes de moedas. Se um dia um ladrão entrar na agência e se dirigir ao arquivo de talões de cheques, há uma grande possibilidade dele pegar quantos quiser sem ser molestado, pois todos provavelmente pensarão tratar-se de um novo funcionário. Nesse dia não foi diferente. Lá estava ele concentrado em sua difícil tarefa quando foi subitamente indagado: “Quem é você? O que está fazendo ai? Está perdido, menino?” Gritou-lhe o Sr. Arnaldo, um dos gerentes.
Ao que ele lhe respondeu: “estou contando moedas, sou um novo funcionário”.Então, Arnaldo disse um “tudo bem, não tinha sido informado de que havia um novo funcionário”. e caiu fora. É mole? E isso ainda não era tudo!
O chefe de caixa na época e atual gerente de contas jurídicas, Sr. Jetson estava preocupado com seus subordinados, pois o movimento era muito grande e ele tinham que ficar até tarde. “Eles precisam de um lanche” pensou. Mas quem pagaria? Ele mesmo? Sem chance. O banco? Nem pensar. Ainda estava nítida em sua memória a última vez que a situação dos caixas trabalhando sem receber horas extras havia sido discutida. Foi aí que ele teve a grande idéia.
Nesse meio tempo, Alexandre se encontrava perdido as sacolas de moedas que giravam a sua volta quando se deparou com a voz de Jetson, que lhe disse: “Você está contando essas moedas?” “Não, estou jogando boliche”, deve Ter passado pela cabeça do rapaz, mas ele simplesmente respondeu “Sim”.
“Você vai fazer o seguinte” Continuou o chefe, sem titubear; “De cada pacote de 100, 00, você vai tirar 5,00. Dos pacotes de 50,00 você tira 1,00. Não se preocupe, pois essas moedas sempre vêm com diferença mesmo, ninguém irá desconfiar”.
“E o que eu faço com este dinheiro?” Indagou o rapaz, ao que o chefe lhe respondeu: “Você passe para a tesouraria, que ele será utilizado para pagar o lanche dos caixas”.
Isso é que é primeiro dia. Aprender a roubar deve ser o sonho de todo pretendente a administrador. Sem contar o fato que contar moedas é algo bastante emocionante.O pior é que parte desse dinheiro foi utilizada posteriormente para pagar um churrasco de despedida de um dos gerentes!


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