
Quando o Sr. Jorge ligava para seu gerente no banco X ele dificilmente consegui falar com o mesmo. Os gerentes sempre estavam em uma ligação que parecia durar para sempre e a telefonista, quando atendia ao telefone prontamente (o que às vezes acontecia) o colocava em espera ouvindo aquela musiqueta infernal onde ele era geralmente esquecido!
O que o Sr. Jorge nem desconfiava era que uma das razões pela qual a telefonista demorava tanto a atender ao telefone ou o esquecia freqüentemente na espera era que ela tinha que desempenhar varias “funções” ao mesmo tempo, nem todas dentro da legalidade.
Desde que a palavra “espião” (originada no francês antigo “espie” que quer dizer observar) virou moda com a descoberta de diversos grampos telefônicos em autoridades pelo país afora, muito se falou sobre a invasão de privacidade causada por eles. Entretanto, isso sempre me pareceu uma discussão distante haja vista que não envolvia diretamente o nosso dia a dia. Que eu saiba, grampos telefônicos, ao menos em teoria, só podem ser feitos por autorização judicial. No entanto, não é o que se vê na prática.
Devido a vários acontecimentos, suspeitava-se que a ligações telefônicas estavam sendo monitoradas. Era uma hipótese tão absurda quanto verdadeira, imaginar que pessoas que deveriam ter mais o que fazer gastassem seu precioso tempo com algo tão baixo. No entanto, um gerente de negócios, Sr. Carlos, costumava receber ligações telefônicas ao fim do expediente. Esse gerente sempre tinha atritos com o Sr. Nero, por razões que serão citadas mais adiante. Um dia, Carlos foi demitido. Como é de praxe em casos de demissão, há sempre uma pequena reunião entres os funcionários do sindicato e o gerente titular, para se descobrir os motivos da rescisão. Até ai tudo bem. Só que Nero não conseguia demonstrar motivos plausíveis que justificassem a dispensa do funcionário. Cada motivo apresentado era rechaçado sem dó e piedade. Por exemplo, ele alegou que o demitido não havia cumprido suas metas de abertura de conta, o que não era verdade. Não convenceu ninguém. Tentou demonstrar que o ex-funcionário estava acomodado, não procurava mais novos clientes. O problema é que ninguém naquela agência fazia isso. Se isso fosse um pecado, todos os membros da gerência teriam que ser crucificados.
Finalmente, Nero virou-se para os funcionários do sindicato e disse: “Ele foi demitido por gastar seu tempo recebendo ligações particulares durante o expediente”. (Isso por si só já seria um absurdo, pois é público e notório que o Sr. Paulo, promotor de vendas de seguro que lá permanece até hoje, conversa com prostitutas ao telefone durante o expediente apesar de ser casado. Aliás, Paulo é um notório funcionário fantasma, que apesar de quase não aparecer para o trabalho recebe o segundo melhor salário da agência) Mas o pior não era isso. Como ele sabia disso? Como ele podia afirmar que as ligações eram particulares?Ao ser indagado sobre isso, ele simplesmente alegou que o próprio Carlos lhe havia confessado que as ligações eram particulares.
Em uma conversa reservada com o demitido, ficamos sabendo que ele nunca disse nada a Nero sobre essas ligações, mas que as mesmas realmente eram particulares e que por uma incrível “coincidência”, ele estava falando com o ex-gerente titular que havia sido transferido para outra cidade, o sr. Dalmo. Outra “coincidência” espantosa era o fato que os dois, Nero e Dalmo, eram desafetos declarados, para não dizer que se odiavam.
Até ai já havia indícios suficientes para se desconfiar que algo de errado estava acontecendo com os telefones. No entanto, outro fato teria de ocorrer para que não houvesse dúvidas.
Um diretor do banco chamado Vladimir costumava ligar para Anacleto (sempre ele). Nesse dia, a telefonista de nome Sandra recebeu a ligação e transferiu-a normalmente ao mesmo. Ele estava conversando com o diretor e num determinado momento este pediu para falar com Ágata, uma gerente de negócios que havia começado a trabalhar ali há pouco tempo. Essa gerente, por sinal, viria a se tornar famosa dentro do banco pelas peripécias em que se envolveria, mais isso veremos mais adiante. O funcionário informou que ela não estava na mesa dela e que ele deveria ligar mais tarde. Ao dizer isso, desligou o telefone. Nesse exato momento, a gerente (que se encontrava na sala de reunião, que fica localizada atrás e a direita da sala da telefonista) passou em frente à sala da telefonista. A telefonista então gritou para o funcionário: “Olha a gerente aí, o diretor não queria falar com ela?”.
Anacleto, obviamente confuso com a capacidade telepática da moça, foi até a sala dela e lhe perguntou: “Como você sabia que o diretor queria falar com ela?”. Sandra, visivelmente assustada e percebendo a besteira que tinha feito tentou consertar, dizendo: “Ah, Eu ouvi você dizer que não sabia onde Ágata estava”. Agora é que ficou tudo complicado. A telefonista fica em uma sala de vidro, à aproximadamente 10 metros de distância do local no qual Anacleto estava atendendo ao telefone. Pode se deduzir que seria impossível para ela ouvir o que eles conversavam mesmo que ela quisesse. A não ser que ela estivesse utilizando uma função do aparelho telefônico, que a permitiria entrar em qualquer ligação sem ser percebida, bloqueando o microfone e somente ouvindo.
De posse dos fatos, Anacleto e Cláudio se reuniram com o Gerente Administrativo, Sr. Adroaldo, e lhe informaram de sua desconfiança. Ele se dirigiu a telefonista e de forma reservada, exigiu a verdade, no que ela confessou que monitorava sim as conversas telefônicas do pessoal do sindicato, mas o fazia por ordem expressa de Nero. Também deveria preparar relatórios sobre o que era conversado e semanalmente, ele e ela reuniam-se para que ela o informasse de tudo. Ela jurava que somente fazia isso com os funcionários do sindicato, mas como acreditar nela? Também não havia meios de se provar que ela o fazia sob ordens. A única saída foi lhe dizer que não fizesse mais.
Você provavelmente nunca passou por algo parecido, então não tem idéia do que é trabalhar em um local assim. Não poder conversar com a própria esposa no telefone, por receio de estar sendo vigiado é horrível. Uma colocação mal feita, uma frase errada pode significar o desemprego. O pior é saber que, em caso de abrir um processo contra ela, Nero simplesmente diria que nunca a mandou fazer coisa alguma e se safaria ileso.No final das coisas, a solução veio de forma prosaica. O banco simplesmente decidiu que os próprios funcionários deveriam se encarregar do atendimento telefônico, já que, utilizando palavras do próprio banco, a maioria das ligações recebida é particular. Difícil saber como eles conseguem informações desse tipo. Mas difícil ainda é conseguir falar com alguém nesse banco hoje em dia. Quase todas as telefonistas foram demitidas. Coitado do seu Jorge. Agora é que ele não consegue mesmo falar com seu gerente
O que o Sr. Jorge nem desconfiava era que uma das razões pela qual a telefonista demorava tanto a atender ao telefone ou o esquecia freqüentemente na espera era que ela tinha que desempenhar varias “funções” ao mesmo tempo, nem todas dentro da legalidade.
Desde que a palavra “espião” (originada no francês antigo “espie” que quer dizer observar) virou moda com a descoberta de diversos grampos telefônicos em autoridades pelo país afora, muito se falou sobre a invasão de privacidade causada por eles. Entretanto, isso sempre me pareceu uma discussão distante haja vista que não envolvia diretamente o nosso dia a dia. Que eu saiba, grampos telefônicos, ao menos em teoria, só podem ser feitos por autorização judicial. No entanto, não é o que se vê na prática.
Devido a vários acontecimentos, suspeitava-se que a ligações telefônicas estavam sendo monitoradas. Era uma hipótese tão absurda quanto verdadeira, imaginar que pessoas que deveriam ter mais o que fazer gastassem seu precioso tempo com algo tão baixo. No entanto, um gerente de negócios, Sr. Carlos, costumava receber ligações telefônicas ao fim do expediente. Esse gerente sempre tinha atritos com o Sr. Nero, por razões que serão citadas mais adiante. Um dia, Carlos foi demitido. Como é de praxe em casos de demissão, há sempre uma pequena reunião entres os funcionários do sindicato e o gerente titular, para se descobrir os motivos da rescisão. Até ai tudo bem. Só que Nero não conseguia demonstrar motivos plausíveis que justificassem a dispensa do funcionário. Cada motivo apresentado era rechaçado sem dó e piedade. Por exemplo, ele alegou que o demitido não havia cumprido suas metas de abertura de conta, o que não era verdade. Não convenceu ninguém. Tentou demonstrar que o ex-funcionário estava acomodado, não procurava mais novos clientes. O problema é que ninguém naquela agência fazia isso. Se isso fosse um pecado, todos os membros da gerência teriam que ser crucificados.
Finalmente, Nero virou-se para os funcionários do sindicato e disse: “Ele foi demitido por gastar seu tempo recebendo ligações particulares durante o expediente”. (Isso por si só já seria um absurdo, pois é público e notório que o Sr. Paulo, promotor de vendas de seguro que lá permanece até hoje, conversa com prostitutas ao telefone durante o expediente apesar de ser casado. Aliás, Paulo é um notório funcionário fantasma, que apesar de quase não aparecer para o trabalho recebe o segundo melhor salário da agência) Mas o pior não era isso. Como ele sabia disso? Como ele podia afirmar que as ligações eram particulares?Ao ser indagado sobre isso, ele simplesmente alegou que o próprio Carlos lhe havia confessado que as ligações eram particulares.
Em uma conversa reservada com o demitido, ficamos sabendo que ele nunca disse nada a Nero sobre essas ligações, mas que as mesmas realmente eram particulares e que por uma incrível “coincidência”, ele estava falando com o ex-gerente titular que havia sido transferido para outra cidade, o sr. Dalmo. Outra “coincidência” espantosa era o fato que os dois, Nero e Dalmo, eram desafetos declarados, para não dizer que se odiavam.
Até ai já havia indícios suficientes para se desconfiar que algo de errado estava acontecendo com os telefones. No entanto, outro fato teria de ocorrer para que não houvesse dúvidas.
Um diretor do banco chamado Vladimir costumava ligar para Anacleto (sempre ele). Nesse dia, a telefonista de nome Sandra recebeu a ligação e transferiu-a normalmente ao mesmo. Ele estava conversando com o diretor e num determinado momento este pediu para falar com Ágata, uma gerente de negócios que havia começado a trabalhar ali há pouco tempo. Essa gerente, por sinal, viria a se tornar famosa dentro do banco pelas peripécias em que se envolveria, mais isso veremos mais adiante. O funcionário informou que ela não estava na mesa dela e que ele deveria ligar mais tarde. Ao dizer isso, desligou o telefone. Nesse exato momento, a gerente (que se encontrava na sala de reunião, que fica localizada atrás e a direita da sala da telefonista) passou em frente à sala da telefonista. A telefonista então gritou para o funcionário: “Olha a gerente aí, o diretor não queria falar com ela?”.
Anacleto, obviamente confuso com a capacidade telepática da moça, foi até a sala dela e lhe perguntou: “Como você sabia que o diretor queria falar com ela?”. Sandra, visivelmente assustada e percebendo a besteira que tinha feito tentou consertar, dizendo: “Ah, Eu ouvi você dizer que não sabia onde Ágata estava”. Agora é que ficou tudo complicado. A telefonista fica em uma sala de vidro, à aproximadamente 10 metros de distância do local no qual Anacleto estava atendendo ao telefone. Pode se deduzir que seria impossível para ela ouvir o que eles conversavam mesmo que ela quisesse. A não ser que ela estivesse utilizando uma função do aparelho telefônico, que a permitiria entrar em qualquer ligação sem ser percebida, bloqueando o microfone e somente ouvindo.
De posse dos fatos, Anacleto e Cláudio se reuniram com o Gerente Administrativo, Sr. Adroaldo, e lhe informaram de sua desconfiança. Ele se dirigiu a telefonista e de forma reservada, exigiu a verdade, no que ela confessou que monitorava sim as conversas telefônicas do pessoal do sindicato, mas o fazia por ordem expressa de Nero. Também deveria preparar relatórios sobre o que era conversado e semanalmente, ele e ela reuniam-se para que ela o informasse de tudo. Ela jurava que somente fazia isso com os funcionários do sindicato, mas como acreditar nela? Também não havia meios de se provar que ela o fazia sob ordens. A única saída foi lhe dizer que não fizesse mais.
Você provavelmente nunca passou por algo parecido, então não tem idéia do que é trabalhar em um local assim. Não poder conversar com a própria esposa no telefone, por receio de estar sendo vigiado é horrível. Uma colocação mal feita, uma frase errada pode significar o desemprego. O pior é saber que, em caso de abrir um processo contra ela, Nero simplesmente diria que nunca a mandou fazer coisa alguma e se safaria ileso.No final das coisas, a solução veio de forma prosaica. O banco simplesmente decidiu que os próprios funcionários deveriam se encarregar do atendimento telefônico, já que, utilizando palavras do próprio banco, a maioria das ligações recebida é particular. Difícil saber como eles conseguem informações desse tipo. Mas difícil ainda é conseguir falar com alguém nesse banco hoje em dia. Quase todas as telefonistas foram demitidas. Coitado do seu Jorge. Agora é que ele não consegue mesmo falar com seu gerente
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